Pina - FIDS

Pina

  01, Dec, 2018

  2 Comentários

Certa vez estive a 5 metros de Pina Bausch. Recém terminara o espetáculo Para as Crianças de Ontem, Hoje e Amanhã, no Porto Alegre em Cena, em setembro de 2011 e ela assistira na plateia, junto de nós. Meu impulso foi de ir até ela e abraçá-la, mas optei por acompanhar com o olhar aquela figura de preto e com uma muleta, deslocando-se livremente em meio a multidão que, como eu, não ousou importuná-la. Juro que entrei em transe numa parte do espetáculo em que módulos brancos, num cenário predominantemente branco, moviam-se muito lentamente enquanto um bailarino conduzia em seus ombros uma bailarina que, por sua vez, movimentava os braços feito pássarA. Completavam um grande círculo, enquanto outras duplas de bailarinos entravam no espaço em tempos e de pontos diferentes, preenchendo “aleatoriamente” lugares no círculo com intervalos tão perfeitos entre eles, como nunca tinha visto. Tudo ao som de uma música instrumental, da qual lembro apenas de ter sido jogada pra outra dimensão. Apaguei. Foi rápido e quando emergi desse “outro lugar”, quase não cabia a emoção sentida.

Dela também assisti o espetáculo Cravos, vídeos, alguns filmes e, no FIDS, o documentário Dancing Dreams. Como uma amadora (que ama) da dança-teatro, vivo povoada de sensações. Pina foi coreógrafa, dançarina, pedagoga de dança  e diretora na Companhia Tanztheater Wuppertal. Sempre trabalhou conjuntamente com seus bailarinos, cujas coreografias partem de suas próprias experiências de vida. Trajes elegantes, movimentos, às vezes palavras, criam frases que intensificam as emoções e as corporeidades.

É assim. Não é só dança, não é só teatro. Também não termina uma linguagem para começar outra. É um “entre”, mas que forma um só lugar. Suas obras contam histórias, individuais ou coletivas, que passeiam pelo trágico, pelo cômico, pelo absurdo. Nelas transitam significados que nos atravessam e nos desconcertam, fazendo com que busquemos outros pousos como porto seguro, para logo sermos instabilidade novamente. Pina Bausch é um convite para “dançarmos” sempre, para vermos nossa vida com a poesia que ela merece.

Tina Andrighetti

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2 comentários

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denisestoklos@gmail.com

3 years ago

Tina, belíssimo texto! combina total com os trabalhos da pina bausch! suas frases parecem dançar no meio daqueles bailarinos completos dela! Que suavidade e intensidade você coloca ao tratar da pina, suas palavras vão se assemelhando ao que a gente vê no palco, como o mistério que os trabalhos dela apresentam! Parabéns! Como a expressão do que se sente é em si arte! Está aí a mostra! Obrigada por isso. Beijos, denise

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Tina Andrighetti

3 years ago

Obrigada, Denise! Fico feliz com teus comentários! Bjs

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